Uma parte crescente dos jogos mais populares do mundo não é feita por estúdios tradicionais, por isso Murilo Moura Alencar, Tech, People & Game Strategist e cofundador do estúdio de games do filho, observa que esse movimento muda a própria definição de quem é desenvolvedor de games. Plataformas como Roblox e Fortnite deixaram de ser apenas jogos e passaram a funcionar como ambientes em que milhões de pessoas criam, publicam e monetizam suas próprias experiências.
Os números ajudam a dimensionar a tendência. Segundo a própria Roblox, a empresa distribuiu cerca de US$ 1,5 bilhão a criadores de conteúdo em 2025 por meio de seu programa de pagamentos, alta de mais de 60% em relação ao ano anterior. A seguir, o que está mudando nesse cenário e por que isso importa.
O que está mudando?
Durante décadas, criar um jogo exigia montar um estúdio, escolher um motor gráfico, resolver questões técnicas complexas e, depois, encontrar um jeito de distribuir o produto. Nas plataformas de criação, boa parte disso já está resolvida. Servidores, sistema de pagamentos, ferramentas de desenvolvimento e, principalmente, o público estão disponíveis desde o primeiro dia.
O criador concentra o esforço no que torna sua experiência única: a ideia, as regras e a forma de manter os jogadores interessados. Murilo Alencar aponta que isso reduz drasticamente a barreira de entrada e permite que equipes pequenas, ou até pessoas sozinhas, alcancem audiências que antes exigiriam grandes investimentos.
Uma nova economia de criadores
A Epic Games seguiu caminho parecido ao lançar, em 2023, ferramentas profissionais de criação dentro do Fortnite e um modelo que reparte com os criadores uma parcela relevante da receita do jogo, de acordo com o engajamento gerado por suas experiências.
Murilo Alencar ressalta que esse modelo transforma criadores em pequenos empreendedores. Alguns já operam como estúdios, com equipes, análise de dados e atualizações frequentes. Para quem está começando na carreira de game developer ou game designer, essas plataformas funcionam também como laboratório para aprender, testar ideias e construir portfólio.
Os limites do modelo
Construir dentro da plataforma de outra empresa traz dependência. Regras de pagamento, políticas de conteúdo e algoritmos de recomendação podem mudar a qualquer momento, e o criador tem pouca influência sobre essas decisões. A propriedade intelectual também fica limitada ao ecossistema em que foi criada.
Há ainda questões de responsabilidade. Parte expressiva do público dessas plataformas é formada por crianças e adolescentes, o que exige cuidado redobrado com práticas de monetização, comunicação e segurança. Na visão de Murilo Moura Alencar, criadores que tratam esse público com respeito tendem a construir audiências mais fiéis e menos expostas a crises.
O que isso significa para estúdios tradicionais?
As plataformas de criação competem diretamente pelo tempo dos jogadores. Uma criança que passa a tarde explorando experiências criadas por outros usuários está escolhendo isso no lugar de outros jogos.
Ao mesmo tempo, abrem oportunidades. Estúdios podem testar conceitos rapidamente dentro dessas plataformas antes de investir em projetos maiores, criar experiências ligadas a suas próprias marcas ou encontrar talentos que já demonstraram capacidade de atrair público. Ignorar esse movimento significa disputar a atenção dos jogadores sem entender onde parte deles está passando seu tempo.
Criar ficou mais acessível
A tendência das plataformas de criação amplia o acesso ao desenvolvimento de jogos de forma inédita. Murilo Moura Alencar salienta, nesse contexto, que nunca foi tão fácil transformar uma ideia em algo jogável e colocá-la diante de milhões de pessoas, muitas vezes sem investimento inicial relevante.
O desafio, como sempre, continua sendo o mesmo: fazer algo que as pessoas queiram jogar. As ferramentas mudaram, mas os fundamentos do game design seguem sendo o que separa uma experiência esquecida de uma que conquista o público.
