Entidade cita juros altos, avanço das importações e instabilidade internacional entre os fatores que devem conter a expansão da indústria têxtil neste ano.
A indústria da moda brasileira entra em 2026 com um cenário de cautela. Segundo projeções da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit), a produção do setor têxtil e de vestuário deve crescer apenas 1,1% neste ano, um ritmo bem inferior ao registrado em 2025. O anúncio, feito pela entidade que representa fabricantes de tecidos e confecções em todo o país, reflete um conjunto de fatores que vai de juros elevados a tensões geopolíticas ainda sem solução. Para quem acompanha o mercado de moda, a notícia levanta uma dúvida direta: o consumidor vai sentir esse desaquecimento no bolso, nas prateleiras ou nas duas coisas ao mesmo tempo? A resposta passa por entender como a Abit chegou a esses números e o que eles representam para fabricantes, lojistas e compradores em todo o Brasil.
O que explica a desaceleração prevista para este ano?
A projeção de crescimento de 1,1% da produção têxtil e de vestuário representa uma queda expressiva frente à expansão de 4,4% estimada para 2025. Fernando Pimentel, diretor superintendente da Abit, apresentou o número à imprensa classificando as expectativas do setor como cautelosas, sem previsão de recuo, mas também sem sinal de aquecimento do mercado interno. Essa moderação aparece em praticamente todos os indicadores divulgados pela entidade, o que sugere um ano de estabilidade mais do que de expansão.
As vendas no varejo devem crescer apenas 0,7%, um número que praticamente empata com a inflação e indica que o consumidor brasileiro segue comprando roupas com parcimônia. Já as exportações de vestuário e produtos têxteis têm perspectiva mais animadora, com alta estimada de 3,3% para o ano. A diferença entre esses números mostra que o mercado externo tem se tornado um alívio parcial para fabricantes que sentem o consumo interno mais fraco, ainda que não seja suficiente para compensar todo o ritmo perdido no varejo doméstico.
Outro dado que chama atenção é o crescimento esperado das importações, projetado em 5,1%, ritmo superior ao da produção nacional. Isso significa que roupas e tecidos vindos de fora devem ganhar espaço nas prateleiras brasileiras mais rápido do que a indústria local consegue crescer, um movimento que preocupa fabricantes de pequeno e médio porte, mais expostos à concorrência de preço com produtos importados.
Some a esse quadro o peso dos juros altos, que seguem restringindo o crédito ao consumidor e encarecendo o capital de giro das confecções. Para uma indústria que depende de ciclos de produção longos, com compra antecipada de matéria prima e financiamento de estoque, taxas elevadas reduzem a margem de manobra das empresas e tornam qualquer planejamento de expansão mais arriscado.
Quais fatores externos pesam sobre as projeções?
Pimentel citou diretamente o cenário internacional como um dos motivos para a cautela da entidade. Entre os pontos mencionados estão a revisão jurídica do acordo entre Mercosul e União Europeia, que ainda tramita e pode alterar prazos e condições de acesso a mercados, além de tensões geopolíticas que envolvem desde a guerra na Ucrânia até atritos diplomáticos internacionais. Esse conjunto de incertezas afeta a confiança de empresários que dependem de cadeias de suprimento globais para produzir suas coleções.
As eleições também entraram na lista de fatores observados pela Abit como geradores de instabilidade. Em anos eleitorais, é comum que empresários adiem decisões de investimento à espera de maior clareza sobre políticas econômicas e tributárias, o que tende a reduzir o ritmo de expansão de setores intensivos em mão de obra, como é o caso da confecção. Some a isso o risco de rupturas em cadeias produtivas internacionais, um temor recorrente desde os anos de instabilidade geopolítica mais aguda.
Pimentel foi direto ao afirmar que não enxerga sinais de apaziguamento dessas tensões no curto prazo, o que reforça a postura conservadora da entidade. Para o setor têxtil, que importa boa parte de suas máquinas, insumos químicos e fibras sintéticas de fora do país, qualquer solavanco em cadeias globais de suprimento se traduz rapidamente em custo mais alto de produção.
O que essa desaceleração significa na prática para quem compra e vende moda?
Para o consumidor final, o principal efeito tende a ser sentido na disponibilidade e no preço de produtos importados. Com o crescimento das importações superando o da produção nacional, é provável que marcas internacionais e produtos vindos de países como China ganhem ainda mais espaço em lojas físicas e no comércio eletrônico, pressionando fabricantes brasileiros a competir por preço em segmentos de entrada.
Para lojistas, sobretudo os de pequeno porte, o cenário de vendas mais fracas no varejo (crescimento estimado de apenas 0,7%) exige planejamento de estoque mais enxuto e menor margem de erro nas apostas de coleção. Comprar demais em um ano de consumo contido pode significar liquidações mais agressivas ao longo do período, afetando diretamente a rentabilidade das lojas.
Já para fabricantes voltados à exportação, o ano se desenha como uma oportunidade relativa, já que as vendas para o exterior devem crescer mais que o mercado interno. Empresas que conseguirem se posicionar em mercados como o europeu, especialmente após avanços recentes em acordos comerciais, podem encontrar no exterior o fôlego que falta na demanda doméstica.
Os números da Abit não indicam recessão, mas apontam para um ano de ajustes finos dentro da cadeia da moda brasileira. Entre juros altos, câmbio, concorrência importada e um calendário eleitoral que naturalmente gera cautela, o setor têxtil se prepara para navegar 2026 com pouco espaço para erro. Fabricantes, varejistas e consumidores devem sentir esse equilíbrio delicado ao longo dos próximos meses, com o desempenho das exportações funcionando como uma válvula de escape para um mercado interno ainda contido. A tendência é que o setor só recupere fôlego mais firme quando o cenário de juros e o quadro geopolítico global derem sinais mais claros de estabilidade.
Fontes: Jornal de Brasília, Notícias do Planalto
