Pacto comercial reduz tarifas sobre exportação de algodão e vestuário, mas efeitos práticos para a indústria da moda ainda dependem de anos de implementação.
Depois de mais de duas décadas de negociação, o acordo comercial entre Mercosul e União Europeia entrou em vigor de forma provisória em 2026, criando uma das maiores áreas de livre comércio do mundo. Para a indústria da moda brasileira, o pacto representa uma mudança de médio e longo prazo nas regras de comércio internacional, com potencial de ampliar exportações de algodão e vestuário, mas também de facilitar a entrada de marcas europeias no mercado nacional. A dúvida que fica para quem acompanha o setor é direta: esse acordo vai realmente mudar o que o consumidor brasileiro compra, ou os efeitos vão demorar anos para chegar às lojas? Entender os detalhes da negociação ajuda a responder essa pergunta com mais precisão.
O que o acordo muda nas tarifas do setor têxtil?
Atualmente, o Brasil cobra 35% de imposto de importação sobre produtos têxteis, enquanto a União Europeia pratica uma tarifa bem menor, de 12%, sobre produtos semelhantes vindos do Mercosul. O acordo prevê a eliminação gradual dessas tarifas, mas de forma assimétrica: o bloco europeu vai zerar impostos sobre 95% dos bens vindos do Mercosul, enquanto o bloco sul-americano vai eliminar tarifas sobre 91% dos produtos europeus. Essa diferença busca compensar o histórico de proteção mais forte que os países do Mercosul aplicavam sobre sua indústria.
O prazo para essa redução tarifária, no entanto, varia bastante conforme o tipo de produto. Segundo especialistas do setor, o período de desgravação pode ir de uma aplicação praticamente imediata até mais de 30 anos, dependendo da sensibilidade do item para cada economia. No caso específico do vestuário, a expectativa da Abit é de que os efeitos concretos para o setor sejam sentidos apenas em torno de oito anos após a entrada em vigor do acordo, um horizonte bem mais longo do que o de outros setores industriais.
Já no caso do algodão, matéria prima na qual o Brasil é o terceiro maior produtor mundial, a expectativa é mais otimista. Com a isenção de tarifas prevista para essa commodity, países europeus poderiam passar a comprar mais fio e tecido produzidos no Brasil, já que a importação ficaria mais competitiva em relação ao cenário atual, no qual peças como casacos, jaquetas e camisas pagam hoje 12% de imposto para entrar no bloco europeu.
Quais oportunidades e riscos o pacto traz para a moda nacional?
Em nota oficial, a Abit celebrou o acordo, destacando oportunidades como o aumento de investimentos e cooperação tecnológica entre os blocos, além do fortalecimento do diálogo cultural e da qualificação de profissionais do setor. A entidade também citou a possibilidade de o Brasil ampliar sua inserção internacional, aproveitando o fato de que a União Europeia é o segundo maior parceiro comercial do país.
Por outro lado, a redução de tarifas também facilita a entrada de marcas europeias no mercado brasileiro. Redes como Zara e H&M, além de marcas de luxo com operação no país, podem se beneficiar de custos menores de importação, o que tende a intensificar a concorrência com fabricantes nacionais em segmentos de moda de médio e alto padrão. A chegada recente de novas marcas, como a estreia da Bershka no Brasil, é apontada por analistas do setor como um sinal desse movimento de internacionalização acelerada.
Fernando Pimentel, da Abit, pondera que o acordo por si só não vai automaticamente aumentar as vendas brasileiras na Europa. Segundo ele, os empresários do setor precisam se interessar ativamente em exportar mais, ao mesmo tempo em que reformas internas no chamado custo Brasil (conjunto de fatores que encarecem a produção no país, como tributos, logística e burocracia) seguem sendo essenciais para aumentar a competitividade da indústria nacional frente a outros países exportadores.
Vale mencionar que a implementação do acordo ainda enfrenta uma etapa jurídica importante. O texto foi encaminhado ao Tribunal de Justiça da União Europeia para análise de compatibilidade com as normas do bloco, processo que pode levar até dois anos para ser concluído, o que mantém uma parcela de incerteza sobre a consolidação definitiva do pacto.
Passados os primeiros meses de vigência provisória, o acordo Mercosul-União Europeia já provoca movimentação dentro da indústria da moda brasileira, tanto entre fabricantes que enxergam oportunidade de exportação quanto entre lojistas que se preparam para uma concorrência internacional mais acirrada. Os próximos anos serão decisivos para mostrar se o Brasil consegue transformar a redução de tarifas em ganho real de mercado, ou se o efeito prático ficará restrito a poucos segmentos, como o de matérias primas. Para o consumidor, a expectativa é sentir esse impacto de forma gradual, sobretudo se mais marcas europeias decidirem ampliar sua presença no país nos próximos anos.
Fontes: Agência Brasil, Jornal de Brasília, Etiqueta Certa
