Levantamentos do IBGE e da Abit mostram que o país reúne mais de 21 mil empresas de confecção e figura entre os maiores produtores têxteis do mundo.
Quando o assunto é moda, o Brasil costuma ser lembrado pelas passarelas, pelos desfiles e pelas tendências que chegam às lojas a cada estação. Mas por trás das vitrines existe uma estrutura industrial gigantesca, pouco visível ao consumidor comum e capaz de colocar o país entre os maiores produtores têxteis do planeta. Dados recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção (Abit) ajudam a dimensionar essa cadeia, que vai da produção de fibras e tecidos até a fabricação e distribuição do vestuário que chega ao guarda-roupa dos brasileiros. Entender esses números é essencial para quem quer compreender por que a moda nacional pesa tanto na economia e gera tanto emprego pelo país.
Qual é o real tamanho da cadeia produtiva da moda no Brasil?
Segundo a Abit, o país produz cerca de 8 bilhões de peças de roupa confeccionadas por ano, volume que coloca o Brasil entre os principais produtores mundiais de artigos têxteis e de vestuário. Esse número por si só já indica a escala de uma indústria que emprega milhões de trabalhadores em toda a cadeia, da fiação e tecelagem até a costura final das peças que abastecem lojas de todo o país.
O levantamento da Pesquisa Industrial Anual (PIA-Empresa), divulgado pelo IBGE com base em dados de 2023, identificou 21,6 mil empresas de confecção de artigos de vestuário e acessórios em operação no Brasil. Esse número mostra que, diferentemente do que se imagina, a indústria da moda nacional não está concentrada em poucos grandes grupos, mas pulverizada em milhares de negócios de diferentes portes espalhados por praticamente todas as regiões do país.
Essa pulverização tem consequências diretas na forma como o setor se organiza. Enquanto grandes marcas conseguem investir em tecnologia e escala de produção, a maioria das empresas de confecção no Brasil é de pequeno e médio porte, muitas vezes concentradas em polos regionais tradicionais, como o eixo produtor de Santa Catarina, o polo de moda íntima em Nova Friburgo (RJ) e os polos de confecção do Ceará e de Minas Gerais. Cada um desses arranjos regionais tem sua própria especialidade dentro da cadeia têxtil nacional.
Além da produção de peças prontas, o Brasil também se destaca na produção de matérias primas, sobretudo o algodão, do qual o país é o terceiro maior produtor mundial. Essa combinação de força agrícola e capacidade industrial de confecção é um diferencial que poucos países conseguem reunir, colocando o Brasil em posição privilegiada para atender tanto o mercado interno quanto a exportação de fios, tecidos e vestuário.
Por que esses números importam para a economia brasileira?
A dimensão da cadeia da moda vai muito além do valor de mercado das roupas vendidas. Trata-se de uma indústria intensiva em mão de obra, que emprega desde costureiras e operadores de máquinas têxteis até designers, estilistas e profissionais de logística e vendas. Em muitas cidades do interior brasileiro, a confecção é a principal atividade econômica local, sustentando famílias inteiras e movimentando o comércio da região.
O setor também é um exemplo de como a indústria brasileira consegue integrar diferentes elos da cadeia produtiva dentro do próprio território nacional, da plantação de algodão até a peça pronta na loja. Essa integração reduz a dependência de importações em determinados elos da cadeia, ainda que o setor enfrente concorrência crescente de produtos estrangeiros em segmentos de entrada, sobretudo vindos da Ásia.
Compreender essa escala ajuda também a explicar por que decisões de política econômica, como acordos comerciais internacionais ou mudanças na tributação de importados, geram tanto debate dentro do setor. Quando uma cadeia produtiva emprega tantas pessoas e reúne milhares de empresas de pequeno porte, qualquer alteração nas regras do jogo tem potencial de afetar diretamente a renda de comunidades inteiras espalhadas pelo país.
A moda brasileira, portanto, é bem mais do que estilo e tendência: é uma engrenagem econômica de proporções continentais, que conecta o campo, a indústria e o comércio em uma cadeia que vai muito além das vitrines das grandes cidades. Os números do IBGE e da Abit deixam claro que, para cada peça de roupa comprada, existe uma rede extensa de trabalho por trás, muitas vezes invisível ao consumidor final. Reconhecer essa dimensão ajuda a entender por que o setor têxtil segue sendo um dos pilares da indústria de transformação no Brasil, mesmo em meio a anos de crescimento mais moderado como o que se projeta para 2026.
Fontes: CREA-RJ
