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Leitura: A força das raízes baianas na memória de Alfredo Moreira Filho
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Jornal Fashion > Blog > Notícias > A força das raízes baianas na memória de Alfredo Moreira Filho
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A força das raízes baianas na memória de Alfredo Moreira Filho

Ryan Everwick
Ryan Everwick Publicado agosto 24, 2026
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5 Min de leitura
Alfredo Moreira Filho
Alfredo Moreira Filho

Um dos trechos mais reveladores de Pequenas Histórias e Algumas Percepções registra a perda do sotaque baiano e a decisão de se considerar simplesmente brasileiro. É uma declaração estranha num livro em que quase tudo o que se aprende vem de um pedaço de mangue entre duas baías do sul da Bahia. As raízes baianas continuam ali, inteiras, só que não estão onde se costuma procurá-las.

Décadas depois daquela infância, já empresário em Brasília, Alfredo Moreira Filho reconstruiu a rotina da Fazenda Furado, na Costa do Dendê, faixa que vai de Valença a Camamu. O que sobressai nas páginas não é a paisagem, embora ela apareça com fartura de dendezeiros e caranguejos. É um conjunto de regras práticas que a geografia impunha a todos ali, e que seguem funcionando muito longe do mangue.

A maré manda mais que a vontade

Levar a produção da fazenda para vender em Ituberá dependia menos da disposição de sair cedo do que da tábua das marés. Não se subia o rio na vazante nem se descia na enchente, sob pena de remar contra a água o percurso inteiro. Na maré baixa havia outro problema: a canoa parava a certa distância do cais e a descarga virava trabalho dobrado.

O aprendizado embutido nisso não é sobre navegação. É sobre a existência de janelas de execução definidas por algo que ninguém controla, e sobre o custo de ignorá-las por pressa. A decisão certa, na descrição de Alfredo Moreira, era chegar entre a meia-maré e a preamar, um intervalo estreito. Quem sai fora dele não fracassa, apenas paga muito mais caro pelo mesmo resultado.

Cada meio de transporte cobra um preço diferente

Da Fazenda Furado até Ituberá havia três opções, e nenhuma era melhor que as outras em termos absolutos. A canoa a remo levava cerca de três horas e comportava carga. O burro fazia o trajeto em duas, mas com capacidade tão reduzida que era preciso levar um segundo animal só para o transporte das mercadorias. A pé, o tempo dobrava.

A escolha, portanto, nunca era pelo mais rápido. Era pelo que a carga daquele dia exigia, com o peso decidindo antes do relógio. Esse critério aparece raramente em decisões urbanas, em que velocidade virou sinônimo de acerto. O autor cresceu vendo que acrescentar um animal ao comboio custava mais que perder uma hora, e que a conta muda conforme o que se leva.

Onde falta quase tudo, manutenção vira habilidade

Não havia energia elétrica, água encanada nem filtro. A iluminação vinha de lampião, fifó e candeeiro, a água era carregada das fontes até os potes da casa e o único rádio funcionava com uma bateria de carro, ligada apenas nas primeiras horas do dia para o noticiário. Quando a carga acabava, alguém levava o acumulador até Ituberá para recarregar.

Uma casa assim ensina que todo recurso tem ciclo, reposição e responsável. A dona da casa, Dona Rosa, cuidava sozinha da vacinação e dos vermífugos das crianças do lugar e tratava ferimentos com bálsamos, mastruz, andiroba e copaíba. É como método corriqueiro, e não como façanha, que Alfredo Moreira Filho apresenta esse improviso. Era simplesmente o modo de manter as coisas de pé.

O que resta de um lugar depois que o sotaque some?

Havia uma curiosidade linguística naquela região: ninguém dizia que ia a Salvador. Dizia-se que ia à Bahia, como se aquele pedaço de chão pertencesse a outro estado. A frase revela algo que nenhuma declaração de amor à terra natal revelaria, que é a distância real sentida por quem morava ali, muito maior do que a do mapa.

Raiz, nesse sentido, não é saudade nem pronúncia. É a gramática com que alguém decide quando sair, o que levar e o que consertar primeiro, aprendida num lugar específico e depois aplicada em qualquer outro. Sotaque se perde em poucos anos de convivência com outros falares. Essa gramática, não. Ela costuma sobreviver a todas as mudanças de endereço.

Tag:Alfredo Moreira FilhoEmpresário Alfredo Moreira FilhoFundador e Management do Grupo Valore+O que aconteceu com Alfredo Moreira FilhoQuem é Alfredo Moreira FilhoTudo sobre Alfredo Moreira Filho
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