Uma pesquisa nacional identificou um descompasso entre a forma como os brasileiros avaliam a própria saúde e a presença de hábitos associados ao risco de doenças crônicas e câncer. Embora 59% dos entrevistados considerem sua saúde ótima ou boa, 63% estão acima do peso e 42% afirmam não praticar atividade física.
O levantamento foi realizado pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus Pesquisa e Inteligência de Dados. A coleta ouviu presencialmente 2.015 pessoas com 16 anos ou mais, entre 25 e 30 de junho de 2026, nas 27 unidades da Federação. A pesquisa tem margem de erro de dois pontos percentuais e intervalo de confiança de 95%, conforme informações divulgadas pela Agência Brasil.
Percepção positiva não substitui prevenção
Os resultados não representam um diagnóstico individual nem permitem concluir, isoladamente, que uma pessoa esteja doente. Eles mostram, porém, que a sensação de bem-estar pode coexistir com fatores de risco que nem sempre provocam sintomas imediatos. Por isso, a avaliação subjetiva da saúde não deve substituir o acompanhamento regular com profissionais e a atenção a mudanças no corpo e na rotina.
Entre os participantes classificados como acima do peso, 37% relataram sobrepeso e 26% obesidade. O levantamento também apontou que, entre aqueles que praticam exercícios, a média é de 2,4 dias por semana. A combinação dos dados reforça a importância de observar não apenas como a pessoa se sente, mas também seus hábitos alimentares, nível de movimento e outros fatores que influenciam a saúde ao longo do tempo.
O tema se relaciona ao trabalho de prevenção abordado pelo A.C.Camargo Cancer Center, instituição responsável pela parceria do estudo e por iniciativas de conscientização sobre fatores ligados ao câncer. A prevenção, nesse contexto, envolve acompanhamento adequado e informação, sem transformar os dados de uma pesquisa populacional em uma avaliação clínica individual.
Preço e falta de tempo aparecem como barreiras
A pesquisa também investigou as dificuldades para manter uma alimentação considerada saudável. Entre as pessoas que relatam obstáculos para adotar bons hábitos alimentares, 29% apontam o preço de carnes, frutas e vegetais. Outros 21% citam a falta de tempo e o cansaço provocados pela rotina.
Os números indicam que as escolhas alimentares não dependem somente de disposição pessoal. O orçamento doméstico, a jornada de trabalho e o tempo disponível para planejar e preparar refeições podem limitar a adoção de determinados hábitos. A leitura dos resultados, portanto, precisa considerar as condições concretas em que as pessoas vivem.
Detalhes sobre o levantamento e sua metodologia também foram publicados pela Medicina S/A. A abrangência nacional, com entrevistados de todos os estados e do Distrito Federal, oferece um retrato amplo da percepção dos brasileiros, mas não elimina as diferenças sociais e regionais existentes no país.
Como transformar informação em cuidado
A pesquisa pode servir como ponto de partida para uma reflexão sobre prevenção. Avaliar a própria saúde como boa é uma percepção relevante, mas deve ser acompanhada de cuidados compatíveis com cada fase da vida. Consultas periódicas, orientação profissional, alimentação equilibrada dentro das possibilidades de cada família e prática de atividade física adequada são medidas que devem ser consideradas de forma individualizada.
Também é importante evitar abordagens baseadas em culpa. O preço dos alimentos e a falta de tempo aparecem entre as principais barreiras citadas pelos entrevistados, o que mostra que mudanças de comportamento precisam ser discutidas junto a políticas de acesso, informação e condições de vida. A pesquisa não determina o que cada pessoa deve fazer, mas evidencia a distância que pode existir entre sentir-se saudável e manter uma rotina de prevenção.
Para o leitor, a principal conclusão é que a ausência de sintomas ou a percepção positiva sobre o próprio estado não deve levar ao abandono do acompanhamento de saúde. Peso, alimentação, atividade física e outros fatores de risco podem ser avaliados com orientação qualificada. Dessa forma, a autopercepção continua sendo parte da experiência individual, mas deixa de ser o único parâmetro para cuidar da saúde.
